Parassonias no idoso: comportamentos anormais durante o sono que podem ser sinal precoce de doenças neurodegenerativas

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
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Conforme alerta o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o sono do idoso é frequentemente tratado como um território de queixas menores, insônia, despertar precoce e sonolência diurna, quando, na verdade, pode ser uma janela diagnóstica de grande valor clínico. As parassonias, comportamentos anormais que ocorrem durante o sono, como gritar, chutar, socar, andar ou agir como se o sonho estivesse sendo vivido em vigília, raramente recebem a atenção que merecem nas consultas geriátricas, sendo atribuídas ao estresse ou à idade avançada sem investigação adequada. Neste artigo, você vai entender por que esses episódios noturnos podem ser muito mais do que perturbações do sono.

O que são as parassonias e como se manifestam no idoso?

As parassonias são distúrbios do sono caracterizados por comportamentos, movimentos, emoções ou percepções indesejadas que ocorrem durante o adormecimento, o sono ou o despertar. No idoso, as mais clinicamente relevantes são o transtorno comportamental do sono REM, em que o paciente age fisicamente os conteúdos de seus sonhos durante a fase de sono de movimento rápido dos olhos, e as parassonias do sono NREM, que incluem o sonambulismo, os terrores noturnos e o despertar confusional.

Como detalha Yuri Silva Portela, o transtorno comportamental do sono REM merece atenção especial na população geriátrica porque está fortemente associado ao desenvolvimento posterior de doenças neurodegenerativas como doença de Parkinson, demência com corpos de Lewy e atrofia de múltiplos sistemas. Estudos longitudinais demonstram que até 80% dos pacientes diagnosticados com esse transtorno desenvolvem uma dessas condições ao longo dos anos seguintes, tornando seu reconhecimento precoce uma oportunidade real de intervenção preventiva.

O transtorno comportamental do sono REM como marcador neurológico

Durante o sono REM normal, o cérebro produz uma atonia muscular que paralisa o corpo enquanto os sonhos ocorrem, impedindo que os movimentos do sonho se traduzam em movimentos reais. No transtorno comportamental do sono REM, esse mecanismo de inibição motora falha, permitindo que o paciente execute os movimentos que está sonhando. O resultado são episódios em que o idoso grita, chuta, soca, cai da cama ou agride o parceiro de quarto durante a madrugada, frequentemente sem qualquer recordação do episódio ao acordar.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, a falha nesse mecanismo inibitório é causada pela degeneração de estruturas específicas do tronco encefálico que são afetadas precocemente nas doenças neurodegenerativas com corpos de Lewy, anos ou décadas antes que os sintomas motores ou cognitivos característicos dessas condições se manifestem. Identificar o transtorno comportamental do sono REM no idoso é, portanto, identificar uma janela de oportunidade para acompanhamento neurológico e intervenções preventivas antes que o dano neurológico se torne clinicamente evidente.

Diagnóstico, avaliação e o papel da polissonografia

O diagnóstico definitivo do transtorno comportamental do sono REM requer polissonografia com monitoramento de vídeo, exame que registra as atividades cerebral, muscular e comportamental durante o sono e permite identificar a ausência de atonia muscular durante a fase REM. No entanto, a suspeita clínica pode e deve ser levantada muito antes do exame, por meio de uma anamnese cuidadosa que inclua perguntas específicas sobre comportamentos durante o sono, dirigidas tanto ao paciente quanto ao parceiro de quarto ou familiar que compartilha o ambiente.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, a maioria dos idosos com transtorno comportamental do sono REM nunca recebe o diagnóstico porque nunca é perguntada sobre o que acontece durante suas noites. Desse modo, incorporar perguntas sobre comportamentos noturnos à avaliação geriátrica rotineira é uma mudança simples com potencial diagnóstico expressivo que não exige tecnologia sofisticada, apenas atenção clínica direcionada.

Manejo, segurança e acompanhamento longitudinal

O tratamento do transtorno comportamental do sono REM inclui medidas farmacológicas, como o uso de clonazepam em baixas doses ou melatonina em doses mais elevadas, com eficácia documentada na redução da frequência e da intensidade dos episódios. Igualmente importantes são as medidas de segurança ambiental: remover objetos cortantes ou pesados do entorno da cama, instalar proteções laterais, colocar o colchão no chão e, quando necessário, sugerir que o parceiro durma em outro ambiente para evitar lesões acidentais.

Segundo Yuri Silva Portela, o acompanhamento longitudinal do idoso com transtorno comportamental do sono REM deve incluir avaliação neurológica periódica com atenção aos primeiros sinais de parkinsonismo ou declínio cognitivo, permitindo que o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa seja feito na fase mais precoce possível, quando as intervenções disponíveis têm maior potencial de preservar a qualidade de vida do paciente.

 

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