O médico radiologista e ex-secretário de Saúde, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, analisa que, durante décadas, o diagnóstico do câncer de mama esteve diretamente associado aos exames de imagem e, quando necessário, à retirada de uma pequena amostra do tecido para análise em laboratório. Essa lógica continua sendo a base da medicina moderna, mas uma nova tecnologia vem despertando o interesse de pesquisadores em todo o mundo por propor um caminho diferente: identificar sinais do câncer por meio de uma simples amostra de sangue. Conhecida como biópsia líquida, essa abordagem está entre as áreas mais promissoras da oncologia e pode transformar a maneira como algumas doenças serão diagnosticadas e acompanhadas nas próximas décadas.
A proposta da biópsia líquida vai muito além de substituir um procedimento convencional. O objetivo é detectar fragmentos microscópicos liberados pelos tumores na corrente sanguínea antes mesmo que determinadas alterações sejam perceptíveis nos exames de imagem. Embora essa tecnologia ainda esteja em desenvolvimento para o rastreamento populacional, ela já apresenta resultados relevantes no monitoramento de pacientes oncológicos e representa uma das principais apostas da medicina de precisão.
Afinal, o que é uma biópsia líquida?
Quando ouvimos a palavra “biópsia”, normalmente pensamos na retirada de um fragmento de tecido por meio de uma agulha ou de um procedimento cirúrgico. A biópsia líquida segue uma lógica completamente diferente. Em vez de coletar parte do tumor, ela analisa componentes biológicos que circulam naturalmente no sangue, como fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA), células tumorais circulantes (CTCs), RNA, proteínas e pequenas vesículas chamadas exossomos.
Essas estruturas funcionam como “rastros biológicos” deixados pelas células cancerígenas. À medida que um tumor cresce, parte do seu material genético pode ser liberada na circulação. Com o auxílio de técnicas altamente sensíveis de sequenciamento molecular, pesquisadores conseguem identificar mutações específicas e alterações genéticas associadas ao câncer. Em outras palavras, em vez de observar apenas a anatomia por meio das imagens, a medicina passa a investigar o comportamento molecular da doença.
Por que essa tecnologia desperta tanto interesse?
O grande desafio da oncologia sempre foi diagnosticar o câncer o mais cedo possível. Quanto menor o tumor e mais precoce a identificação, maiores tendem a ser as chances de tratamento com menor agressividade e melhores taxas de sobrevida. Entretanto, existe um limite para o que os exames de imagem conseguem detectar. Antes de aparecer na mamografia, na ultrassonografia ou na ressonância magnética, um tumor precisa atingir determinado tamanho para se tornar visível.
É justamente nesse intervalo que a biópsia líquida desperta o interesse da comunidade científica. A hipótese é que alterações moleculares possam ser identificadas antes mesmo da formação de uma lesão detectável pelos métodos convencionais. Diversos estudos investigam se pequenas quantidades de DNA tumoral circulante poderiam funcionar como um sinal precoce da doença, permitindo intervenções ainda mais rápidas. No entanto, transformar essa possibilidade em um programa de rastreamento seguro exige superar desafios importantes relacionados à sensibilidade e à especificidade dos testes.
A biópsia líquida poderá substituir a mamografia?
Essa é uma das perguntas mais frequentes quando o assunto ganha destaque. Apesar dos avanços científicos, a resposta ainda é não. Atualmente, a mamografia permanece como o principal exame para o rastreamento do câncer de mama, porque possui décadas de validação científica e demonstrou, em grandes estudos populacionais, capacidade de reduzir a mortalidade pela doença.

Dr. Vinicius Rodrigues pontua que a tendência mais provável não é a substituição, mas a integração entre diferentes tecnologias. Enquanto os exames de imagem continuam permitindo localizar, medir e caracterizar uma lesão, a biópsia líquida poderá oferecer informações biológicas que nenhuma imagem consegue revelar. Essa combinação tem potencial para tornar o diagnóstico mais preciso, indicar quais pacientes precisam de investigação adicional e acompanhar a resposta aos tratamentos de forma menos invasiva.
Muito além do diagnóstico: o que a biópsia líquida já consegue fazer?
Embora seu uso no rastreamento ainda esteja em investigação, a biópsia líquida já vem sendo utilizada em diferentes áreas da oncologia. Em pacientes com câncer confirmado, ela auxilia na identificação de mutações que orientam terapias-alvo, monitora a resposta ao tratamento e pode detectar sinais de doença residual mínima, isto é, pequenas quantidades de células tumorais que permanecem no organismo após cirurgia, quimioterapia ou radioterapia.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues frisa que outro campo que cresce rapidamente é o acompanhamento da evolução do tumor ao longo do tempo. Como o câncer sofre alterações genéticas durante seu desenvolvimento, exames seriados podem revelar o surgimento de novas mutações associadas à resistência aos medicamentos. Isso permite que a equipe médica ajuste a estratégia terapêutica com maior precisão, aproximando cada vez mais o tratamento do conceito de medicina personalizada.
Quais desafios ainda impedem sua aplicação em larga escala?
Apesar do enorme potencial, a biópsia líquida ainda enfrenta limitações importantes. Tumores muito pequenos podem liberar quantidades extremamente reduzidas de DNA na circulação, dificultando sua detecção. Além disso, nem toda alteração genética encontrada no sangue está necessariamente relacionada ao câncer de mama, o que exige métodos altamente específicos para evitar resultados falso-positivos ou interpretações equivocadas.
Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, outro desafio consiste em demonstrar, por meio de estudos clínicos robustos, que a utilização da biópsia líquida no rastreamento realmente reduz a mortalidade sem aumentar diagnósticos desnecessários. Antes de qualquer tecnologia ser incorporada às diretrizes internacionais, ela precisa comprovar não apenas que identifica mais alterações, mas que melhora efetivamente os desfechos para as pacientes.
O futuro do diagnóstico combinará imagens e biologia molecular
A história da radiologia mostra que cada nova tecnologia ampliou a capacidade dos médicos de compreender o organismo humano. A biópsia líquida representa mais um passo nessa evolução ao permitir que informações invisíveis às imagens sejam incorporadas ao processo diagnóstico. No entanto, seu maior potencial talvez não esteja em substituir os métodos atuais, mas em trabalhar de forma integrada com eles.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o futuro da prevenção e do diagnóstico do câncer de mama será construído pela combinação entre diagnóstico por imagem, biologia molecular, inteligência artificial e medicina de precisão. À medida que essas áreas evoluem em conjunto, a tendência é que os profissionais consigam identificar tumores de forma cada vez mais precoce, compreender melhor o comportamento de cada doença e oferecer tratamentos verdadeiramente personalizados. Mais do que uma nova tecnologia, a biópsia líquida representa uma mudança na forma como a medicina enxerga o câncer: não apenas como uma alteração visível em um exame, mas como um processo biológico que pode ser monitorado desde seus primeiros sinais.
