Por que o Banco Central assumiu a supervisão do mercado de criptoativos? Entenda neste artigo

Camille Dorevan
Por Camille Dorevan
6 Min de leitura

O Banco Central ganhou um novo papel na economia digital brasileira: fiscalizar o mercado de criptoativos. De acordo com Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos, a decisão encerrou um período sem supervisão específica e passou a exigir autorização formal das empresas que custodiam ou intermediam ativos virtuais. Nos últimos anos, as criptomoedas deixaram de ser curiosidade tecnológica e entraram na rotina de investidores, empresas e pagadores internacionais.

Esse avanço trouxe oportunidades, mas também fraudes, falhas de custódia e riscos de lavagem de dinheiro. Assim sendo, a escolha do regulador monetário revela uma leitura madura sobre os riscos que esse tipo de serviço carrega para o sistema financeiro. Interessado em saber mais sobre? Confira, a seguir.

Por que o Banco Central foi escolhido como supervisor?

A resposta começa na lei. Segundo Paulo de Matos Junior, o Marco Legal dos Ativos Virtuais, de 2022, previu um órgão regulador, e um decreto de 2023 (11.563) indicou o BC para a função. Além disso, a autoridade monetária já supervisiona bancos, corretoras de câmbio e instituições de pagamento. Esse histórico oferece estrutura técnica para acompanhar capital, governança, segurança cibernética e prevenção à lavagem de dinheiro, temas que antes ficavam sem um dono claro.

Há ainda um motivo estratégico. Os criptoativos cruzam fronteiras com facilidade e se aproximam do mercado de câmbio, área em que o BC já tem competência. Desse modo, concentrar a fiscalização em quem domina pagamentos e câmbio reduz brechas entre autoridades e evita que o setor escolha a regra mais branda. O empresário Paulo de Matos Junior, comenta que essa lógica fortalece a coerência do sistema e dá ao investidor um ponto único de referência.

Como funciona o regime criado para as prestadoras de criptoativos?

O desenho do regime combina autorização prévia com supervisão contínua, e seu objetivo é elevar a proteção ao cliente. Em vigor desde fevereiro de 2026, as Resoluções BCB 519, 520 e 521 criaram as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais, as SPSAVs, e fixaram regras de entrada e de funcionamento. Na prática, os principais pilares desse modelo são os seguintes:

  • Autorização prévia: nenhuma empresa nova presta o serviço sem aval do BC, após análise do negócio e dos controladores;
  • Segregação patrimonial: recursos dos clientes ficam separados do caixa da empresa;
  • Governança e controles: exigências de segurança cibernética, controles internos e prevenção à lavagem de dinheiro;
  • Integração cambial: pagamentos e transferências internacionais com criptoativos passam a seguir regras do mercado de câmbio.
Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

Esse conjunto aproxima as exigências das empresas de criptoativos daquelas aplicadas ao sistema financeiro tradicional. Como ressalta Paulo de Matos Junior, a segregação patrimonial ocupa posição central, porque protege o investidor em cenários de insolvência. Isto posto, empresas que já operavam receberam 270 dias para pedir autorização, prazo que se encerra em breve, e quem não protocolar o pedido precisa encerrar as atividades logo depois.

Quais mudanças chegam ao mercado de criptoativos?

A primeira mudança é a confiança. Investidores comuns passam a contar com empresas fiscalizadas, regras de custódia e canais formais de responsabilização. Para o mercado, isso significa menos espaço para plataformas improvisadas e mais incentivo à profissionalização, o que beneficia quem já trabalha com transparência. Bancos e gestoras, por sua vez, ganham previsibilidade para oferecer produtos ligados a criptoativos sem enfrentar a incerteza jurídica do período anterior.

Existe, porém, um custo de adaptação, frisa Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos. Empresas menores precisarão investir em compliance, contabilidade e tecnologia, e algumas talvez não suportem a exigência. Esse filtro, embora duro, tende a favorecer quem constrói operação sustentável. O mercado pode encolher no curto prazo, mas tende a ganhar solidez. O desafio do regulador será manter a proporcionalidade, para que a proteção ao cliente não sufoque a inovação.

Supervisão firme e inovação responsável: o equilíbrio que o setor precisa

Diante desse panorama, a escolha do Banco Central combina lógica técnica e visão de longo prazo. A autoridade já domina câmbio, pagamentos e prudência financeira, e agora aplica esse conhecimento a um segmento que cresceu rápido e carecia de regras claras. Desse modo, o regime de autorização, a segregação patrimonial e a integração cambial formam uma base consistente para o mercado de criptoativos amadurecer.

Todavia, a supervisão não encerra o debate, pontua Paulo de Matos Junior. O êxito do modelo dependerá da fiscalização efetiva e do diálogo constante com o setor, já que a tecnologia evolui mais depressa que as normas. Logo, quem atua com criptoativos deve tratar a conformidade como parte do negócio e acompanhar de perto as próximas decisões do regulador.

 

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