Polícia Civil desarticula grupo de Cuiabá que aplicava golpes digitais em outros estados

Camille Dorevan
Por Camille Dorevan
6 Min de leitura

Operação Fake Eagle identificou estrutura criminosa que usava contas bancárias de terceiros e linhas telefônicas falsas para enganar vítimas

Um esquema sofisticado de fraude eletrônica, montado a partir de Cuiabá para atingir vítimas em outros estados do país, foi alvo de uma operação policial no início de setembro. A Polícia Civil de Mato Grosso, em parceria com investigadores do Rio Grande do Sul, cumpriu mandados judiciais contra um grupo criminoso que usava identidades falsas, contas bancárias de terceiros e números de telefone adulterados para aplicar golpes pela internet.

Como a fraude foi descoberta

A investigação começou depois que uma empresa de Esteio, no Rio Grande do Sul, quase foi vítima de um golpe. Uma funcionária do setor financeiro recebeu, pelo WhatsApp, uma mensagem partindo de um número que usava a foto do diretor da companhia, pedindo uma transferência de cerca de R$ 29 mil. A tentativa só não deu certo porque a funcionária notou que a abordagem fugia do padrão habitual do executivo e decidiu não fazer o pagamento.

A partir dos dados bancários que os criminosos haviam fornecido para receber o valor, uma conta registrada em nome de terceiros, os investigadores gaúchos começaram a cruzar informações bancárias, telefônicas e de conexão à internet. Esse trabalho de análise levou a uma estrutura criminosa concentrada justamente em Cuiabá, o que resultou na Operação Fake Eagle, batizada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos do Rio Grande do Sul.

Na manhã da operação, equipes da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos e da Gerência de Combate ao Crime Organizado, ambas de Mato Grosso, deram apoio ao cumprimento de sete ordens judiciais, entre elas três mandados de prisão preventiva e quatro de busca e apreensão, todas direcionadas a endereços na capital.

As camadas usadas para dificultar o rastreamento

O nível de organização do grupo chamou atenção dos investigadores. Segundo o levantamento, os criminosos utilizavam contas bancárias e chaves Pix cadastradas em nome de outras pessoas, além de aparelhos celulares e linhas telefônicas com códigos de área de estados diferentes daquele onde de fato operavam, uma estratégia para dificultar a identificação da origem real das ligações e mensagens.

Um exemplo ilustra bem essa engenharia. Uma das linhas telefônicas usadas para abordar a vítima em Esteio tinha DDD 51, número típico do Rio Grande do Sul, mas os dados de localização das antenas de telefonia mostraram que a ligação partiu de um terminal instalado em Cuiabá. Ao aprofundar a investigação, a polícia identificou outros 14 números com o mesmo prefixo, o que sugere que o grupo usava repetidamente essa tática para parecer mais confiável diante de vítimas gaúchas.

O dinheiro obtido com os golpes também passava por um processo de diluição. Assim que caía em uma conta, era rapidamente transferido para outra, numa sequência pensada para dificultar o rastreamento pelos bancos e pelas autoridades. A análise de dados fornecidos por provedores de serviços digitais permitiu comprovar que várias dessas contas estavam associadas aos mesmos aparelhos e à mesma infraestrutura de conexão à internet, o que ajudou a comprovar a atuação integrada do grupo.

A divisão de tarefas dentro do esquema

Com base no conjunto de provas reunido, os investigadores conseguiram individualizar três integrantes como responsáveis pelo núcleo operacional da quadrilha. Cada um exercia uma função específica: controle das contas digitais, fornecimento da infraestrutura de conexão usada nas fraudes e acesso às contas bancárias empregadas para movimentar os valores desviados.

A rotina do grupo incluía revezamento no monitoramento das contas bancárias usadas nos golpes, enquanto os demais integrantes aguardavam a confirmação de cada transferência fraudulenta para dar sequência ao repasse do dinheiro entre as contas de fachada.

O que pode acontecer com os investigados

Além das prisões, a operação teve como objetivo apreender celulares, computadores, chips telefônicos, cartões bancários, documentos e outros dispositivos digitais que possam ajudar a mapear a extensão da atuação do grupo e identificar eventuais vítimas ainda não conhecidas pelas autoridades. Os investigados podem responder por estelionato mediante fraude eletrônica, na modalidade tentada, e por associação criminosa, sem prejuízo de outras infrações que venham a ser apuradas a partir do material apreendido.

Por que esse tipo de golpe segue em expansão no Brasil

Casos como o desarticulado em Cuiabá refletem um cenário mais amplo de fraudes digitais que combinam engenharia social com uso de contas laranja e números de telefone falsificados. Levantamentos do setor de segurança digital apontam que esse tipo de golpe tende a ganhar sofisticação nos próximos anos, à medida que criminosos incorporam novas ferramentas tecnológicas às abordagens usadas para convencer as vítimas.

Para quem recebe pedidos de transferência via WhatsApp, mesmo de contatos aparentemente conhecidos, a orientação de especialistas em segurança digital é sempre confirmar a solicitação por outro canal antes de efetuar qualquer pagamento, principalmente quando o pedido foge do padrão de comunicação habitual da pessoa ou empresa envolvida.

Fontes:
https://www.cbncuiaba.com.br/2026/09/01/operacao-mira-em-golpistas-de-cuiaba-por-crimes-na-internet/

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